sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Sentimentos

Absoluto

Naquela manhã ela acordou de ressaca. Escorreu pela cama, tentando desvencilhar-se dos lençóis. Os olhos pareciam ter areia. Havia perdido os óculos de sol. Antes dava desculpa que tinha outras prioridades para comprar. Mas agora já não se incomodava com o sol da manhã, ferindo os olhos e cegando-lhe a visão. Já não era mais preciso se esconder, já não precisava mais de filtro para ver. Naquela manhã via tudo o que não conseguia aceitar, via tudo o que sempre lhe deu medo, via todos os seus medos.
Havia sido um longo período de febre. Febre que lhe queimava a alma, que lhe causava angústia, que não encontrava um mundo. Sim não se sentia naquele mundo, mas sabia que estava e dependia dele. Mas naquela manhã isso já não importava. Enfim, tinha conseguido aceitar a impotência de não ter domínio do seu próprio desejo. Desejo que lhe saia pelos poros, como um suor de febre baixando, involuntário e absoluto. Sem que ela quisesse, lhe escapava. E ela olhava o mundo com a superioridade de quem está lúcido, de quem está refém e não tem nada a perder. A fome já não lhe provocava desconforto, não precisava mais ser preenchida, só precisava respirar porque estava com medo.
Estava a descobrir seus prazeres, seus desejos e suas necessidades. Não era tempo para decisões superficiais, daquele momento para frente sua vida tomaria outro rumo e por conseqüência, teria que abandonar alguns sonhos. O escuro do devir lhe provocava um misto de alegria e pânico. Um território nunca pisado antes, agora tão presente, premente, prevalente, imponente. Não tinha mais forças para negá-lo e rejeitá-lo. Não se dominava mais!
Então ela se desvencilhou dos lençóis, lavou os olhos cheios de areia com as lágrimas contidas pelo o tempo em que esteve febril e com o sofrimento mais profundo decidiu abandonar-se no suor e no fogo que queimava sua alma.
Ela se entregou para ser possuída e consumida pelo desejo, pelo que hoje entende ser a única possibilidade de respirar.

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