domingo, 6 de janeiro de 2008

causo

A véia, o padre, o quitandeiro e o agente se seguros - no causo do seu ventinho


O agente de seguros, da cidade vizinha, procurava pela cliente, mulher de um tal ventinho. Avistou uma quitanda, que localizava-se logo na entrada do vilarejo, e aproximando-se do quitandeiro perguntou-lhe sobre a tal mulher do tal ventinho.
Meio desconfiado o quitandeiro, foi logo falando que a história da tal mulher era coisa do demônio, de uma maldição qualquer mas se ele queria muito saber, poderia contar o causo.
O agente de seguro afirmou-lhe que precisava muito saber do paradeiro da esposa do tal ventinho. O tom da voz do quitandeiro também tinha-lhe causado um misto de vontade de rir e curiosidade pelo causo.
Então o quitandeiro puxou um rolo de fumo, pegou dois bancos de palha e colocou-os na porta da quitanda e, enquanto começava a picar o fumo disse: - Se aprochegue cumpadre, vou contar tim tim por tim tim o causo da véia e a desgraça que se abateu sobre ela.

A véia tinha por volta de 90 anos. Durante a vida teve, pra lá de uns dez fios (pelo que ela lembrava, mas não sabia ao certo se eram tantos assim). Na época, diziam que o vento que vinha de baixo trazia filhos. Ela nunca entendeu muito bem o que o tal dito queria dizer, mas desconfiava que tivesse relação com o nome de seu marido. Ele se chamava ventinho, porque tinha nascido em uma noite que soprava um ventinho.
Do paradeiro dos filhos, não tinha a menor idéia, conta o boato de que haviam sumido num dia de ventania. O marido, o tal ventinho, parece que foi levado embolado numa linha de pipa. Alguns comentam que a mesma ventania levou os filhos e o ventinho – embolado na linha de pipa.
Despois desse ocorrido cumpadre, a véia se voltou para a religião, como que tentando encontrar uma explicação para tal desgraça.
O senhô excelentíssimo seu padre da paróquia, Wolfgan Severino da Silva (um mulato alto e de olhos azuis) já há muito tinha desistido de ouvir as lamentações da véia. Certa vez mandou a véia rezar 2500 pai nosso e o dobro em ave maria, para ver se ela passava algum tempo sem lhe apoquentar as idéia. Não adiantou! Enquanto rezava, andava atrás do sinhô seu padre se lamentando e pedindo a Deus para lhe trazê o ventinho de novo, podia ser numa outra ventania ou numa tempestade, mas queria ele de vorta.
Já havia se passado 10 anos do sumiço do ventinho e a véia continuava todos os dia na sua lamentação, do lado do padre para modo de lhe torrar os ouvidos.
Dia e noite ela ali, do lado do padre, pedia pelo Ventinho.
Diz que certa vez o padre pensou: Vou dar um trato nesta velha! Quem sabe se ela for consultar a Mãe Mizifia no terreiro? Peço para macumbeira, encher a velha de charuto, pode até defumá-la, e colocá-la no chão. Eu sei que essa coisa de “ir para o chão”, a pessoa fica lá de barriga para baixo, estirada no chão por, pelo menos, dois ou três dias, então ela me dá um refresco – pensou o padre.
E lá foi a véia pra o terreiro da Mãe Mizifia. Três dias despois estava a véia a chamar pelo padre para que ele desse a extremunção na Mãe Mizifia, que tava convalescendo no hospital. Despois de fumar tanto charuto, teve um ataque cardíaco tentando defumar a véia para tirar aquele Exu Tranca-rua-das-almas, que se apossou do corpo da véia. Então lá foi o Padre fazer aquela mal dita extremunção! Mais vontade ele tinha era de encher a Mãe Mizifia de pancada. Macumbeira desgraçada era a velha que tinha que estar neste hospital! –Pensava o padre.
O padre já havia afrouxado os miolo da cabeça e ficou num desvairiu, também pudera, se contava vinte anos e o Exu Tranca-rua-das-almas que tava no corpo da véia não desencarnava! Ele já até acreditava na umbanda e na Mãe Mizifia. Em outra época, tinha pedido ao Bispo que o transferisse de paróquia, mas obteve a negativa do santíssimo Bispo sob a alegação de que ele estava passando por uma provação e deu autorização para que o padre usasse do exorcismo para tirar o diabo do corpo da véia. Num tinha jeitio!
Então um dia o padre recebeu uma iluminação, um sinar, um clarão, desconfio que era o cabloco da Mãe Mizifia, vindo diretamente do terreiro do céu, pra modo de se vingá da veia, que disse-lhe: - Há um tal de Cabra Macho que anda vagando por aí e adora comer criancinhas e velhinhas. Logo o padre pensou: Se ele gosta de comer criancinhas e velhinhas, vou pagá-lo para dar cabo nesta velha! Depois ele pode comê-la como quiser. Com alho e óleo, à vinagrete, ao molho vermelho ou pesto, até assada. Sei lá ele que se vire, contanto que suma com a velha, os fins justificam os meios. Entonces, chamou o sr. Cabra Macho e contratou o serviço do homem. Acertô o local, o dia a hora e o preço. Ainda disse, como se estivesse na missa: - Depóóis o sr. sóóme tambéêm sr Cabra Macho. Sim senhô, vóis missê excelentíssima santidade, pode deixar, o serviço tá contratado e eu honro com minhas palavra. Vô pegá essa véia de quarqué jeito! Respondeu o sr. Cabra Macho.
Despois ouviu-se falar que a véia deu um trabáio ao Cabra Macho! Dizem que ela só concordou mesmo em ser comida, se ele desse a ela o direito ao último desejo: VER O VENTINHO.
Entonces, o povo comenta, que o Cabra Macho, se vestiu de Ventinho e se apareceu na frente da véia, mais ou menos longe, que era pra véia num desconfiá. Diz que a véia ficou tão contente que morreu de sopro no coração. Depois o Cabra Macho assô ela todinha, espetada num bambu. Quando terminou de comer, pegou o ossinho do dedo minguinho dela pra palitar os dentes. E não é que o tal ossinho envergou da mão do sr. Cabra Macho e foi direto em direção a guela do Cabra Macho, que depois de tanto se bater na tentativa de tirar o ossinho da garganta, morreu de asfixia.
E o Padre, depis de saber da tragédia amaldiçoada, resorveu abandonar a batina, para modo de ter se sentido curpado pela morte da véia, e foi viver uma vida de pecados. Hoje ele vévé lá pras banda do desfiladeiro, mora na zona, e se chama Wanderléia. Do nome antigo só manteve o dobre V.....
Entonces cumpadre, essa é a história amaldiçoada da véia, mas o que o senhô quer com ela? Falou o quitandeiro esbanjando um riso sinistro e mostrando os caninos.
Nada não, ou melhor, já fiquei sabendo tudo o que eu precisava saber. Falou o agente de seguros, demonstrando palidez e foz trêmula.
De qualquer maneira, muito obrigado, tenho um compromisso agora e já estou atrasado. Levantou-se num sopetão, olhou para o quitandeiro, pediu desculpas pelo banco molhado e saiu numa disparada.
Peraí cumpadre, não vai querê levá umas sarchichas fresquinhas que eu mesmo fiz? Falou o quitandeiro dando aquele riso sinistro e mostrando os caninos.....

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